
John Hodgson: Divulgação blitzkriegbop.info
Aos 54 anos, John Hodgson pode pensar que o punk acabou em 1979, mas ainda ecoa os dias de 1977: “vários dos meus heróis já morreram, você meio que se acostuma com isso!”. Ele foi o frontman do Blitzkrieg Bop, uma das poucas bandas da Lightning Records com credibilidade. Ele também pode ser apresentado como membro de outras bandas, como Bascsax (reconhecível na coletânea Earcom da Fast Product) e Fast Cakes.
De Teesside, no norte da Inglaterra, o grupo é um legítimo clássico perdido do punk, principalmente pelo compacto da Mortonsound, na qual se encontram o hit Let´s Go, uma gravação caseira feita em cinco minutos, e a ode DIY Bugger Off. A qualidade é reconhecida, mas pela política desinteressada da Lightning Records não chegaram a fazer sucesso comercial. O que Hodgson pensa sobre isso? “Lightning era um selo de merda”, e ponto final.
Hoje, Hodgson é um entusiasta daquela época e possui uma loja de discos na internet, além de administrar o site oficial do Blitzkrieg Bop, onde você encontra uma biografia de 32 capítulos escrita por ele em 1998. É uma pessoa que transpira a ética independente faça-você-mesmo, algo em falta hoje, uma época na qual a maioria das pessoas acha que ser indie é suficiente. Pode-se especular que é esse o espírito que o motiva para não reunir essa sua primeira banda novamente, mas ainda assim fazer música.
Abaixo, ele mantém a luz de 1977 ao falar ao Orgia para Ouvidos sobre o Blitzkrieg Bop, sua época e nossa época.

John Hodgson: Divulgação blitzkriegbop.info
Primeiro, a pergunta cliché: como ex-membro de uma banda clássica do punk, como você se interessou pelo fenômeno, que ele significava para você, como mudou o curso da sua vida e como você se sente sobre a cena hoje?
Em 1976 eu estava num lugar estranho, musicalmente falando. Eu tocava teclados numa banda de funk/soul (Erection), que musicalmente não era recompensador. Eu continuei com isto porque estávamos fazendo shows várias vezes por semana e era uma boa experiência na arte de palcos.
Eu escutava uma ampla variedade de música na época, era um grande fã de rock progressivo (Genesis, Yes, Emerson Lake & Palmer, PFM, Pink Floyd), jazz e jazz/rock fusion (Al de Miola, Santana etc.), pop/rock (Elton John, Bowie, T. Rex, Roxy Music, Sparks), heavy metal (Ac/Dc, Montrose) e também amava The Beatles e Frank Zappa, entre outros.
Eu lia muitas revistas musicais, comprava a NME, Sounds, Melody Maker e Record Mirror toda semana. Então eu comecei a perceber resenhas de bandas como Ramones e Sex Pistols e, ao final de 1976, comprei o single 7’’ Blitzkrieg Bop pelo Ramones. Aquilo me fascinou completamente – eu logo fiquei amarrado na energia e fresquidão da música. Foi aí que comecei a comprar qualquer disco de punk que encontrasse. Logo realizei que tocar numa banda de soul não era algo que eu poderia continuar fazendo.
Em fevereiro de 1977 eu deixei a banda de soul e vagarosamente juntei uma nova banda com antigos amigos que, eventualmente, surgiu como Blitzkrieg Bop em maio de 1977. Punk se tonrou quase uma cruzada religiosa, parei de escutar todos os outros estilos musicais e me devotei totalmente ao movimento, indo a shows (Sex Pistols, Clash, Damned etc.) e produzindo um fanzine (Gabba Gabba Hey).
Isso mudou minha vida da noite para o dia porque a banda podia tocar para pessoas animadas e ser aceita, sem compromisso com nossos princípios musicais.
Eu não sinto nada sobre a cena “hoje”, já que acredito que o punk vive e morre entre 1977 e 1979. Eu odiava a tardia cena Oi! e musicalmente eu deixei o punk há muito tempo atrás – eu ainda amo a música daquele tempo, mas acredito que o punk original e autêntico é o que devia ser celebrado.
Você pode nos contar um pouco sobre a cena de Teesside em 1977? O norte inglês possui uma aproximação distinta em punk rock, com uma série de cenas fabulosas: Manchester, Sheffield, Liverpool…Todas elas tinham bandas com uma identidade sonora muito particular. Você vê assim também? Se sim, como definiria sua região sonoramente?
A cena de Teesside desenvolveu-se no começo de 1977 e estava centrada num clube chamado The Rock Garden, em Middlesbrough – era O lugar onde músicos locais se encontravam toda semana e desenvolvia-se em torno da formação da maioria das bandas de Teesside. Eu não acho que Teesside tenha um som distinto, acredito que a banda punk mais famosa que saiu de lá foi o Penetration.

Blitzkrieg Bop: Capa de Let´s Go, Lightning Records
Blitzkrieg Bop tirou seu nome de uma música do Ramones. Conte-nos um pouco sobre a influência do Ramones e como você se sente sobre eles hoje, já que Joey, Dee Dee e Johnny faleceram.
O Ramones foi responsável por minha entrada no punk e nós admitimos abertamente que tiramos muito deles – o nome da banda, do fanzine e também as sete músicas deles que fazíamos cover no início, antes de nos virarmos para escrever nosso próprio material. Eu gostei deles somente nos primeiros quatro LPs e, depois, pensei que eles mudaram e parei de ouvi-los. Por sua vez, não senti muito quando eles morreram. Eu tenho 54 anos e vários dos meus heróis já morreram, você meio que se acostuma com isso!
Você tem uma loja de discos no ebay (vinylshrine). Discos de punk em vinil passam por um revival hoje em dia, especialmente depois do livro de Mario Panciera, 45 Revolutions. O que você vê de especial em discos de vinil e, especialmente, discos de punk/diy?
Eu coleciono vinil há 43 anos e sempre preferi o som do vinil, que nunca será substituído. E essa obsessão hoje por downloads é simplesmente loucura, eu nunca sonharia em pagar por algo que, na verdade, não existe!
Eu sempre tive um ponto fraco por discos do tipo home-made/diy/indie. Eu tive meu próprio selo em 1980-1983 e uma das minhas ambições é ter um selo bem sucedido, assinando e produzindo novas bandas, mas acho que este sonho já está superado.
O Blitzkrieg Bop tinha sua música sobre ética DIY (Bugger Off) e você teve sua participação nessa cena, escrevendo para fanzines e lançando discos. Hoje muitas pessoas sentem que isso está de volta, com o fenômeno da internet considerado como o principal catalisador. Você ainda administra o site da banda, tem seu perfil no eBay etc. Como você se sente sobre isso tudo?
É incrível, com o Twitter, Facebook, Soundclick etc., você permite pessoas com mentes parecidas de todos lugares do mundo se reunirem e conversarem sobre coisas que eles são apaixonados por – enquanto nos anos 1970 nós tínhamos de nos encontrar em lugares como The Rock Garden, com talvez 300 punks da área de Teesside, hoje você consegue 300 ou 30 mil punks de todo o mundo num clube virtual, dividindo músicas e idéias – isso é surreal para mim.

Blitzkrieg Bop: Divulgação blitzkriegbop.info
Blitzkrieg Bop lançou discos pela Lightning Records. Como era a relação da banda com o selo? Muitas das bandas punks deles nunca foram muito longe em termos de sucesso, apesar de serem muito boas. Eles estavam realmente interessados em lançar bandas de punk ou estavam somente seguindo a moda, sem muita atenção aos artistas, visando só o mercado? Fala-se também de lançamentos ilegítimos, Horrorcomic como o principal exemplo disso. Como você enxerga essas coisas?
Lightning era um selo de merda, eles não gostavam realmente de punk, somente assinavam com um monte de bandas na esperança de que iriam acertar com sorte. É claro que éramos jovens e nos impressionavam facilmente, bem como animados com o prospecto de lançar discos nacionalmente. Nós logo nos desapontamos quando a Lightning deixou claro que eles não nos permitiriam lançar um álbum, o que poderia fazer-nos muito mais famosos.
Você encerra a biografia da banda no seu site mencionando possíveis lançamentos futuros e uma possível reunião. O que devemos esperar do Blitzkrieg Bop nos próximos tempos?
Ok, a biografia foi escrita em 1998 e não foi atualizada. Muita coisa aconteceu desde que escrevi aquilo. Por exemplo, em 1999 nos reunimos para um show de aniversário de 20 anos na The Cornerhouse, em Middlesbrough. O show foi gravado e lançado como um CD ao vivo. Eu também lancei dois CDs privados: Bottom of the Barrell e Now That´s What I Call Rubbish, com faixas raras ao vivo, de ensaio e de estúdio.
A banda sueca Sator fez um cover de nossa música Get Out of My Way, que eles lançaram num DVD ao vivo; e eu a toquei com eles ao vivo há cerca de dez anos atrás. Outras bandas fizeram covers nossos, incluindo uma francesa chamada The No Talents, que lançou uma versão de Life is Just a So-So num single de 7’’. Eu realmente preciso gastar um tempo atualizando a história, pois há um monte de pequenas coisas que aconteceram nos últimos anos.
Eu espero deixar muita música do Bop disponível gratuitamente na internet pelo meu site, ainda há muitas fitas ao vivo e ensaios. E tenho quase certeza que nunca vamos nos reunir novamente, mas o guitarrista Ray Gunn tocou guitarra em algumas músicas eu tenho feito em meu estúdio há alguns meses, então nós talvez façamos algo juntos em estúdio.