
foto: clashmusic.com
As pessoas costumam pensar em Malcolm McLaren como o homem por trás do Sex Pistols. Isso que ele foi, por um tempo, o homem por trás do New York Dolls. Quando ele tinha 16 anos, o futuro produtor já tinha uma carreira profissional. Ou tentou ter uma.
Essa história de como uma pessoa trocou a enocultura pela cultura noturna é contada numa matéria publicada em 11 de março de 2007, no New York Times, das mãos do próprio McLaren:
Never Mind the Bordeaux
MALCOLM McLAREN
Eu tive somente um trabalho de verdade na minha vida. Eu sei o que você está pensando, mas gerenciar o Sex Pistols não foi um trabalho: foi um modo de vida que consistiu em criar um ambiente no qual pudesse agir livremente. O maçante emprego foi em Londres, em 1962, quando eu tinha 16 anos. Eu não havia me saído bem nos exames – na verdade, eu não havia sequer me importado com eles. Universidade era algo fora de questão.
Minha mãe me arrastou para a Agência de Empregos local, onde um homem leu uma lista de empregos disponíveis: operador de máquinas numa fábrica de canetas, assistente de vendedor de linhos, caixeiro de booking para banana boats. Enquanto ele seguia lista, passou por uma vaga para trainee de degustador de vinhos de George Sandeman, o venerável mercador de vinhos. A ocasional taça de sherry em dias religiosos fora o único vinho que eu havia experimentado. Mas minha mãe, um clichê vivo de noveau riche, achou que isso soava respeitável suficiente para entrar em todas cocktail parties.
Uma semana depois, eu me encontrava em Piccadilly subindo uma estreita escadaria para um sótão Dickenseniano. Sala após sala-atingida-por-bomba estava repleta de empoeirados barris e garrafas. Os outros seis trainees eram garotos de Eton e Harrow. A equipe permanente era formada quase inteiramente de coronéis retirados que haviam estacionado na Ásia, quando esta ainda era referida por Oriente. Com um rosto avermelhado e explosivo, nosso chefe era um ex-general que havia passado muito tempo em Burma – matando aldeões, rumores diziam.
Eu era um junior trainee degustador de vinhos e potencial vendedor de vinhos, o que significava que deveria saber tudo sobre vinhos franceses: entender seus valores por idade e qualidade, suas virtudes particulares e, como eu descobri mais tarde, seus vícios. Eu deveria ser capaz de reconhece-los por gosto e identificar de onde vinham.
Todo dia, os trainees eram vendados e levados para um cuspidor. Aqui nós recebíamos tubos de ensaio de vinho e solicitados para experimentar e não engolir. Blueface (como o general ficou conhecido entre nós por conta de suas veias azuis em seu rosto, como um gorgonzola) então nos ensinava sobre as qualidades de todos os vinhos, seguido da inevitável pergunta: “O que nós achamos disso?”.
Na primeira vez que isso aconteceu, estavamos experimentando tintos de Burgundy: “McLaren, diga-nos! O que você acha desse vinho?”.
Cego, incapaz de assimilar um pensamento coerente, eu vozerei: “Sim sinhor! Muito bom. Profundo…-uh, rico, rico, muito rico! Bom, bom”.
“O que você está falando?” respondeu ele. “Isto é um Pommard! A premier cru – 1950!”.
Justo. Mas então ele começou a ficar estranho. “Maldição, parece que um exército passou por lá…essa terra acumulada! Tudo lama. Tudo certo para esses franceses, mas o que nós gostamos é um pouco de frescor, não é?” disse ele, dando cotovelada nas minhas costelas. “Algo novo e intocado”.
Velho Blueface nos fez experimentar outro.
“Agora, isto é uma pequena garota de Morey St Denis!” disse ele. “Uma virgem. Ela precisa respirar um pouco. Então nós podemos aproveitar, saborear e amar como verdadeiramente merece, como Deus nos disse”. Enquanto nós, jovens virgens, ficamos paralizados, embarassados e enrubrescendo de aprender sobre fatos da vida desta maneira, ele falou sobre vinhos para homens e para mulhees. Vinho que tem gosto de homem e vinho que tem gosto de mulher. Vinho que era amigável, bordado, bobo ou simplesmente bonito; heróico ou covarde e tolo. E vinhos que desviavam discussão – esses eram aparentemente homossexuais.
Enquanto os dias passavam, nós viajamos ao longo da França, experimentando seu corpo, estudando suas regiões, aprendendo sobre sua geografia e separando seus homens de suas mulheres. Eventualmente nós estávamos no sudoeste, entornando copos de Sauternes.
“Agora, colega, o que você está bebendo?” perguntou retoricamente o general. “O que é esta bobagem?”.
Antes que pudéssemos responder, ele adicionava com desdém: “Não é francês. Os Romanos estiveram lá e plantaram isto. Nobre decadência! Eles deixaram as uvas pendurar no vinho e morrer lentamente, e o que você obtem? Um monte de gordura debaixo dos braços!”.
De fato, o vinho parecia pesado. Oleoso, gorduroso. Talvez, eu pensei, ele não seja inteiramente insano.
Atrás de nossas vendas, nós tentávamos imitar o que havíamos escutado. Com recentes Burgundy vintages, eu diria: “Virginal, senhor. Não viu um homem”. E com Bordeaux barato, eu sinalizaria: “Está certo, senhor. Esperto, amargo, sem muita disciplina nesse vinho”.
“Macho?”, Blueface perguntaria. “Fêmea?”.
“Definitivamente fêmea. Precisa ser colocada em seu lugar, não é?”
“Muito bom McLaren!” ele diria. Na verdade, eu era bom nisso. E ainda, eu sonhava com coisas melhores para fazer com meu tempo. Eu precisava de uma verdadeira aventura.
Durante nossos intervalos para almoço, o general fazia-nos marchar através da escola de artes de St. Martin. Um dia eu violei as regras e segui um grupo de garotas vestindo sweaters de mohair e meias de renda na escola, onde eu me deparei com uma mulher peituda – uma mulher de verdade! – posando nua num banco, cercada por estudantes desenhando sua aparição sexual. Como faço isso? Eu imaginei.
O general começou a falar sobre nos mandar para Oporto. Eu senti um calafrio pela minha espinha. Nada de Carnaby Street? E minhas roupas? Como eu iria usar camisas de bolinhas e cordões hipster verde-brilhante numa adega de vinhos portuguesa? Eu posso apodrecer! Como eu iria ver as novas bandas de rock’n’roll, The Rolling Stones? The Kinks? Como eu iria descobrir sobre sexo de verdade?
Eu precisava ser demitido. Mas como eu poderia ofender esse grupo de homens militares racistas e sexistas? Não havia outra maneira.
Na semana seguinte, durante a famigerada hora do almoço, eu fiquei ao fundo, fumando um Gitane atrás do outro, tentando arruinar os meus companheiros de gosto em algo que era agora uma sala cheia de fumaça. Eu devo ter fumado um maço inteiro. E então, uma voz: “Que turco imundo esteve aqui?”
“Senhor”, me anunciei. “Senhor, sou eu”.
“O que você está fumando?”. “Gitanes”, disse eu, tentando soar provocativo.
Blueface bateu seu punho na mesa. Seu pescoço roxo, ele procurou por uma caneta. “Havia eu cometido um erro? Juntar-se a este clube era tão importante? Mas então novamente, eu pensei, é tão velho! Não há lugar para ser livre, para errar, para pensar coisas idiotas, para agitar. Eu me senti brega por um tempo e, no ponto inicial, aparentava uma possível corte-marcial.
Mas ele colaborou. Ele escreveu para minha mãe: “Seu filho não serve para trabalhar nesta firma. Ele está fumando cigarros estrangeiros, impedindo outros garotos de experimentar e sentir o cheiro de nossos vinhos. Ele é um sabotador!”.
Isso foi anos antes de ouvir as palavras “concentrado”, “apimentado”, e “herboroso” quando descrevendo vinho. Quando eu beberia Hermitage mais tarde com meus amigos estudantes de arte, eu me encontraria dizendo: “Este tem umas costas largas: velho, maior que suas costas. Um corpo verdadeiramente heróico, masculino”. Ou, então, um Beaujolais barato era “jovem, bordado, tem que observá-la – ela irá traí-lo”. Meus amigos olhavam para mim, divertidos, como se eu fosse um ser intrigante, levemente exótico, saído de um barco de Burma.
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Julho 1, 2009 às 7:58 pm |
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Julho 5, 2009 às 6:06 pm |
quem diria que malcolm tentou ser um inglês refinado um dia…
Julho 13, 2009 às 12:27 am |
Bem escrito demais!!!
sensacional
muas